Na 24ª edição do Prêmio Grande Otelo, promovido pela Academia Brasileira de Cinema, o filme “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles, dominou as categorias principais, incluindo melhor longa-metragem de ficção, direção, atriz para Fernanda Torres e ator para Selton Mello. A cerimônia, realizada na Cidade das Artes Bibi Ferreira, no Rio de Janeiro, destacou a narrativa baseada na história de Eunice Paiva, que lutou pela verdade sobre o desaparecimento de seu marido, o deputado Rubens Paiva, durante a ditadura militar brasileira. Em seu discurso, Salles enfatizou a resistência de Eunice contra o melodrama e o sentimentalismo, enquanto Mello comparou o filme ao “corpo” de Rubens Paiva, simbolizando a ausência forçada de vítimas do regime. A trilha sonora, premiada para Warren Ellis, foi elogiada por capturar essa essência de perseverança.
Fernanda Torres, ao receber o prêmio de melhor atriz, emocionou-se ao descrever como incorporou Eunice Paiva por dois anos, destacando lições sobre enfrentar épocas de medo e insegurança, semelhantes ao contexto atual. A premiação também homenageou o cinema brasileiro desde a era de Carmen Miranda, com apresentações musicais que evocaram hinos culturais e políticos, como “É Preciso Dar um Jeito, Meu Amigo”, de Erasmo Carlos, associado ao filme vencedor. Outros destaques incluíram “3 Obás de Xangô”, de Sérgio Machado, como melhor documentário, e prêmios para animações e séries, como “Senna”, reforçando o papel do audiovisual em preservar narrativas históricas e sociais.
Salles dedicou o prêmio de melhor filme ao crítico José Carlos Avellar, falecido em 2016, reconhecendo sua influência no cinema nacional. A noite celebrou não apenas conquistas artísticas, mas o compromisso do setor com temas de justiça e memória política, em um momento em que o Brasil reflete sobre seu passado autoritário.