No dia em que o Supremo Tribunal Federal (STF) iniciou o julgamento histórico de Jair Bolsonaro (PL) e outros réus por suposta tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022, uma sessão da Comissão de Segurança Pública do Senado ganhou destaque nas redes sociais entre aliados do ex-presidente. Convocado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), presidente da comissão e filho de Jair Bolsonaro, o perito Eduardo Tagliaferro, ex-chefe da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), participou por videoconferência. Tagliaferro reiterou que a assessoria do TSE, sob o comando do ministro Alexandre de Moraes, exercia “poder de polícia”, alegando que Moraes ordenou ações à Polícia Federal e coordenou consultas a dados para identificar pessoas envolvidas em atos criminosos.
Bolsonaristas exploraram o depoimento como estratégia para rivalizar com o julgamento no STF, elevando o nome de Tagliaferro aos assuntos mais comentados no X (antigo Twitter). Flávio Bolsonaro qualificou as denúncias como “gravíssimas”, acusando Moraes de atuar para beneficiar um lado e perseguir Bolsonaro ilegalmente. O senador Esperidião Amin (Progressistas-SC) apontou “abusos autoritários” e mencionou ter 27 assinaturas para instalar uma CPI sobre a produção de provas no STF relacionadas ao 8 de janeiro. A ex-ministra Damares Alves (Republicanos-DF) sugeriu interromper o julgamento, alegando violações de direitos humanos e parcialidade, com base nas acusações de Tagliaferro. Parlamentares governistas, por sua vez, ignoraram a sessão, sem presença de membros titulares ou suplentes da base do governo.
Eduardo Tagliaferro ganhou notoriedade entre bolsonaristas por supostamente expor arbitrariedades de Moraes, mas enfrenta graves acusações. Ele é apontado como responsável pelo vazamento de informações do TSE, conhecido como “Vaza Toga”, revelado por reportagem da Folha de S.Paulo em agosto de 2024. As mensagens indicam que Moraes solicitou relatórios sobre investigados em inquéritos de fake news e milícias digitais durante sua presidência no TSE, de 2022 a 2024. Moraes defendeu as ações como regulares e documentadas. Tagliaferro foi exonerado em maio de 2023 após prisão por violência doméstica e, recentemente, denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por violação de sigilo funcional, obstrução de justiça e outros crimes, com penas potenciais de até 22 anos. Ele deixou o Brasil para a Itália, onde vive, e o governo brasileiro pediu sua extradição.