Enquanto o governo brasileiro avança em negociações oficiais, setores afetados pela tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos não isentos buscam reverter a medida por meio de parcerias com empresas norte-americanas. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) organiza uma missão empresarial aos EUA para aproximar companhias dos dois países e destacar os impactos negativos nas relações comerciais, com foco em sensibilizar o governo americano sem interferir nas tratativas diplomáticas. Segundo o presidente da CNI, Ricardo Alban, as tarifas afetarão também a economia dos EUA, já que o país é o principal destino das exportações da indústria de transformação brasileira, representando 61,4% das exportações e 56,5% das importações de insumos em 2024.
No setor cafeeiro, o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) e a Associação Brasileira de Cafés Especiais (Bsca) alertam que o Brasil fornece 33% do café importado pelos EUA, com vendas anuais de cerca de 2 milhões de sacas e receita superior a US$ 550 milhões. Representantes como Marcos Matos, CEO do Cecafé, enfatizam que a taxação pode elevar a inflação para consumidores americanos e reforçam ações coordenadas com o vice-presidente Geraldo Alckmin e associações como a National Coffee Association. Da mesma forma, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) dialoga com importadores para preservar a competitividade da carne bovina, enquanto a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), presidida por Paulo Hartung, preocupa-se com produtos como painéis de madeira e papéis, mesmo com exceções para celulose e ferro-gusa.
Especialistas destacam os desafios políticos. Thiago Eik, CEO da fintech Bankme, critica a perda de relevância estratégica do Brasil e defende mais pragmatismo nas relações internacionais. O professor César Bergo, da Universidade de Brasília (UnB), aponta que o governo brasileiro deve contestar a avaliação equivocada dos EUA sobre o comércio bilateral. Já Máximo Della Justina, especialista em comércio internacional, avalia que o presidente americano pode manter restrições para evitar demonstrar fraqueza, influenciado pela visão negativa sobre os Brics, o que poderia fortalecer o bloco se a China absorver parte das exportações brasileiras. A Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) defende mais diálogo, notando que os EUA representam 28,6% das exportações do estado, com impactos em setores como rochas ornamentais.