quinta-feira , 23 abril 2026
Cultura e Religião

Arlindo Cruz: o legado de um sambista forjado na ditadura

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Arlindo Cruz, o renomado sambista que faleceu recentemente, deixou um legado marcado pela poética dos subúrbios cariocas, como destacado na biografia “O sambista perfeito”, escrita pelo jornalista Marcos Salles e publicada pela Editora Malê. A obra, baseada em entrevistas com mais de 120 pessoas, incluindo artistas como Maria Bethânia, Zeca Pagodinho e Regina Casé, traça a trajetória de Cruz desde sua origem humilde no Rio de Janeiro. Nascido em uma família musical, com avó jongueira e pai cavaquinista influenciado por mestres como Candeia, Arlindo aprendeu os primeiros acordes ainda criança e evoluiu para compor mais de 700 músicas, com mais de 3 mil gravações. Sua obra, uma ode às comunidades cariocas, o posiciona como um elo entre o partido-alto tradicional e o samba contemporâneo, comparável a ícones como Cartola, Paulinho da Viola e Martinho da Vila.

O contexto político da juventude de Arlindo Cruz, durante a ditadura militar brasileira, é um aspecto revelador na biografia. Nos anos de repressão, com a presença de esquadrões da morte, o sambista desenvolveu sua musicalidade na quadra do Cacique de Ramos, em Olaria, um refúgio cultural que escapou das turbulências diretas do regime. Seu pai, Arlindão, um policial envolvido em atividades políticas, foi preso e posteriormente reabilitado, o que influenciou a visão de mundo de Arlindo. Apesar das adversidades, incluindo um AVC hemorrágico em 2017 que o deixou em luta pela vida até sua morte, Cruz manteve o orgulho por sua ancestralidade e universalizou o samba, traçando personagens e geografias cariocas com sutileza poética, semelhante à forma como Fernando Pessoa eternizou sua aldeia em versos universais.

A biografia também explora parcerias chave de Arlindo, como com Franco, com quem compôs 120 músicas gravadas, e sua paixão pelo carnaval, vencendo sambas-enredo no Império Serrano e na Vila Isabel. Salles, que iniciou o projeto após o AVC de Cruz a convite de sua esposa Babi, incorporou relatos emocionantes que destacam a generosidade do artista e sua abertura a novos estilos, reforçando sua dimensão gigantesca no samba brasileiro.

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