O documentário “E se você não me quiser?”, ainda em produção, aborda o delicado tema das adoções interrompidas no Brasil, destacando as dificuldades enfrentadas por crianças devolvidas e as barreiras para uma nova adoção. As filmagens começaram neste mês no Rio de Janeiro e em Curitiba, com previsão de lançamento no primeiro semestre de 2026. A ideia surgiu em 2011, quando o produtor Eliton Oliveira leu uma reportagem sobre devoluções de crianças, levando-o a pesquisar o assunto com especialistas como médicos, psicólogos, advogados e representantes de conselhos tutelares. No Rio, o filme foca nas trajetórias de Bruno e Pedro: Bruno, que viveu nas ruas com a mãe usuária de drogas e alcoólatra, foi adotado e devolvido antes de encontrar uma segunda família; Pedro, adotado por um casal de mulheres, pediu para ser devolvido devido à ausência de uma figura paterna idealizada, resultando em traumas.
A diretora Ana Azevedo enfatiza que o processo de adoção é frequentemente romantizado, ignorando a necessidade de preparação das famílias para lidar com a bagagem emocional das crianças, muitas vindas de contextos de abuso e negligência. Ela relata casos de agressividade e violência no lar, como os vividos por Bruno com sua segunda família, Tati e Rogério, que persistiram apesar das dificuldades. Azevedo alerta para as consequências graves da devolução, que agravam traumas existentes, e defende um debate mais amplo sobre a responsabilidade dos adotantes.
De acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), de cada 100 crianças adotadas no Brasil, cerca de nove têm o processo desfeito, totalizando 2.198 devoluções desde 2019 em um universo de 24.673 adoções. Embora o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) considere a adoção irrevogável, juizados atendem pedidos de devolução para evitar maus-tratos. Um diagnóstico de 2024 do CNJ e da Associação Brasileira de Jurimetria aponta fatores como diagnósticos psiquiátricos e falta de preparação familiar como razões comuns, resultando em impactos psicológicos profundos nas crianças, incluindo depressão, baixa autoestima e dificuldades de vinculação. O estudo recomenda maior suporte e acompanhamento no processo de adoção.